Confesso que quando ouvi falar pela primeira vez de um jato monomotor com paraquedas, pensei que era piada. Um jato. Com paraquedas. Para a aeronave inteira.
Não é piada. É o Cirrus Vision SF50 — o jato mais vendido do mundo desde 2018. Mais de 721 unidades entregues até dezembro de 2025. Vencedor do Collier Trophy em 2018, o prêmio mais prestigioso da aviação americana. O primeiro jato civil monomotor certificado da história.
Sabe o que aprendi analisando essa aeronave? Que a Cirrus não projetou um jato pequeno. Projetou uma categoria. A categoria do piloto-proprietário que quer velocidade de jato sem a complexidade de uma operação bimotor. E isso muda tudo.
Engenharia
Ficha técnica real. Alcance. Autonomia. Capacidade. Consumo. Manutenção.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Designação | Cirrus Vision SF50 |
| Nome comercial | Vision Jet |
| Fabricante | Cirrus Aircraft (Duluth, Minnesota, EUA) |
| Controlador | CAIGA (China Aviation Industry General Aircraft) |
| Primeiro voo | 3 de julho de 2008 (protótipo) |
| Certificação FAA | 28 de outubro de 2016 |
| Unidades entregues | 721+ (dezembro 2025) |
| Categoria | Very Light Jet (VLJ) — Monomotor |
| Distinção | Primeiro jato civil monomotor certificado |
| Prêmio | Collier Trophy 2018 |
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Comprimento total | 9,42 m (30 ft 11 in) |
| Envergadura | 11,79 m (38 ft 8 in) |
| Altura | 3,32 m (10 ft 11 in) |
| Configuração de asa | Baixa, perfil laminar |
| Empenagem | V-tail (cauda em V) |
| Estrutura | Fibra de carbono integral |
| Trem de pouso | Triciclo retrátil |
Repare nas dimensões. 9,42 metros de comprimento. Envergadura de 11,79 metros. É menor que um Pilatus PC-12 turboprop. Mas voa a 300 nós. Essa compactação não é limitação — é decisão de projeto. A Cirrus quis um jato que coubesse em hangares de aviação geral, que operasse em pistas menores, que não precisasse de infraestrutura de FBO executivo para estacionar.
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Comprimento da cabine | 3,51 m (11 ft 6 in) |
| Largura da cabine | 1,56 m (5 ft 1 in) |
| Altura da cabine | 1,24 m (4 ft 1 in) |
| Volume total | 170 cu ft (4,8 m³) |
| Bagageiro interior | 24 cu ft |
| Bagageiro exterior | 30 cu ft |
| Pressurização | 6,1 psi |
| Capacidade | 1 piloto + até 6 passageiros |
| Configuração típica | 2 dianteiros + 3 traseiros + 2 crianças |
Vamos ser honestos: a cabine do SF50 não é para reuniões de conselho. Altura de 1,24 metro. Largura de 1,56 metro. Você não fica de pé. Mas perceba o que ela é: um cockpit de jato com espaço para levar a família ou dois sócios em velocidade de jato, pressurizado a 31.000 pés, com ar-condicionado e 54 cu ft de bagagem. Para missões de 2 a 3 horas, é mais que suficiente.
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Motor | 1x Williams International FJ33-5A |
| Tipo | Turbofan |
| Empuxo | 1.846 lbf (8,21 kN) |
| Posição | Montado na fuselagem traseira superior |
| Configuração | Monomotor — entrada de ar dorsal |
Sobre o monomotor
O debate "monomotor vs bimotor" é antigo na aviação. A Cirrus resolveu com engenharia: o Williams FJ33 tem taxa de falha inferior a 0,01 por 1.000 horas de voo. E se falhar? O CAPS (paraquedas balístico) e o Safe Return (autoland) garantem que a aeronave pousa inteira. Redundância não é só ter dois motores. É ter sistemas que funcionam quando tudo dá errado.
| Parâmetro | G1 | G2 / G2+ |
|---|---|---|
| Velocidade máxima | 311 kn (576 km/h) | 311 kn (576 km/h) |
| Cruzeiro máximo | 300 kn (556 km/h) | 300 kn (556 km/h) |
| Cruzeiro econômico | 240 kn (444 km/h) | 240 kn (444 km/h) |
| Teto de serviço | 28.000 ft (8.534 m) | 31.000 ft (9.449 m) |
| Razão de subida | 1.609 ft/min | 1.609 ft/min |
| Alcance (NBAA IFR, 4 pax) | 1.000 nm (1.852 km) | 1.275 nm (2.361 km) |
| Distância de decolagem | 978 m (3.192 ft) | 978 m (3.192 ft) |
| Peso máx. decolagem | 2.722 kg (6.000 lb) | 2.722 kg (6.000 lb) |
| Sistema | Função | Disponibilidade |
|---|---|---|
| CAPS | Paraquedas balístico para toda a aeronave | Todas as versões |
| Safe Return | Autoland — pouso automático de emergência | G2 e G2+ |
| Autothrottle | Controle automático de potência | G2+ |
| Garmin G3000 | Aviônicos touchscreen com 3 telas | Todas as versões |
| GFC 700 | Autopilot com envelope protection | Todas as versões |
O CAPS merece um parágrafo à parte. É um paraquedas balístico que desacelera a aeronave inteira — fuselagem, motor, passageiros — até uma velocidade de descida sobrevivível. Já salvou mais de 250 vidas na frota Cirrus (incluindo SR20 e SR22). Nenhum outro jato no mundo tem isso. O Safe Return vai além: se o piloto ficar incapacitado, um passageiro aperta um botão e o avião pousa sozinho no aeroporto mais próximo. Sozinho. Incluindo comunicação com o controle de tráfego aéreo.
| Condição | Consumo |
|---|---|
| Cruzeiro (FL280-FL310) | ~50 GPH (189 L/h) |
| Cruzeiro econômico | ~45 GPH (170 L/h) |
| Tipo de combustível | Jet-A1 |
| Capacidade total | 907 kg (2.000 lb) |
50 galões por hora. Compare: um Phenom 300E queima 130 GPH. Um Hawker 400XP, 160 GPH. O Vision Jet consome menos que muitos turboprops de alta performance. Para quem voa 200 a 300 horas por ano, a diferença no custo de combustível é brutal.
Aplicação Estratégica
Perfil ideal de uso. Tipo de empresário. Tipo de operação. Geografia ideal.
| Critério | Perfil |
|---|---|
| Tipo de empresário | Piloto-proprietário com habilitação de jato |
| Frequência de uso | 150 a 300 horas/ano |
| Missão típica | Rotas de 1 a 3 horas com 2 a 4 passageiros |
| Setor ideal | Profissionais liberais, family offices, empresários regionais |
| Filosofia | Autonomia total. Sem tripulação. Sem dependência. |
O perfil do operador do Vision Jet é radicalmente diferente dos outros jatos que analisamos. Não é o CEO que tem piloto e copiloto esperando na rampa. É o empresário que tem brevê, que gosta de voar, e que quer a liberdade de decidir na sexta-feira à tarde que vai para a praia — e chegar em 1 hora em vez de 6. É autonomia como ativo estratégico.
| Corredor | Viabilidade | Tempo estimado |
|---|---|---|
| São Paulo — Ribeirão Preto | Direto, com folga | ~0h45 |
| São Paulo — Belo Horizonte | Direto, com folga | ~1h10 |
| São Paulo — Rio de Janeiro | Direto, com folga | ~0h50 |
| São Paulo — Curitiba | Direto, com folga | ~0h55 |
| São Paulo — Brasília | Direto, com folga | ~1h40 |
| São Paulo — Assunção | Direto, no limite G2+ | ~2h30 |
| São Paulo — Salvador | Requer escala técnica | ~3h30 |
| São Paulo — Buenos Aires | Requer escala técnica | ~3h20 |
A geografia ideal do Vision Jet é o raio doméstico. São Paulo para qualquer capital do Sudeste e Sul em menos de 2 horas. Para o Centro-Oeste, direto. Para o Nordeste, com escala. Para o Mercosul, o G2+ alcança Assunção no limite — mas não é a missão primária. O SF50 brilha nas rotas de 400 a 800 nm. É o jato do empresário que precisa estar em 3 cidades no mesmo dia, dentro do Brasil.
Arquitetura Jurisdicional
Onde faz sentido estruturar. Base operacional. Custos regulatórios. Vantagens territoriais.
| Jurisdição | Vantagem | Consideração |
|---|---|---|
| Brasil (matrícula PS/PR/PT) | Maior rede de aeroportos da América Latina | Carga tributária sobre importação pode ultrapassar 40% do valor |
| EUA (matrícula N) | Maior frota de SF50 do mundo, infraestrutura completa | Exige estrutura jurídica americana (LLC/Trust) |
| Paraguai (matrícula ZP) | Regime Maquila, importação com tributação reduzida | Frota de VLJ ainda incipiente no país |
| México (matrícula XA/XB) | Proximidade com EUA, rede de manutenção Cirrus | Regulamentação em evolução para VLJ |
Aqui entra uma questão que poucos discutem: a importação de um Vision Jet para o Brasil pode custar mais de 40% do valor da aeronave em tributos. Um jato que custa US$ 3,2 milhões nos EUA pode chegar a US$ 4,5 milhões matriculado no Brasil. A estruturação via Paraguai — sob regime Maquila — ou via matrícula americana com operação baseada no Brasil é uma equação que merece análise caso a caso.
| Requisito | Detalhe |
|---|---|
| Licença mínima | PPJ (Piloto Privado de Jato) ou equivalente |
| Type Rating | SF50 Type Rating (curso de ~2 semanas) |
| Operação single pilot | Sim — certificado para piloto único |
| Centro de treinamento | Cirrus Aircraft (Knoxville, TN, EUA) |
| Recorrência | Anual (simulador + voo) |
O Vision Jet é certificado para operação com piloto único. Isso significa que o proprietário, com a habilitação adequada, pode operar a aeronave sozinho. Sem copiloto. Sem tripulação. A transição de um SR22 (monomotor a pistão Cirrus) para o SF50 é natural — a Cirrus projetou a ergonomia do cockpit exatamente para esse upgrade. É o caminho lógico do piloto-proprietário que quer mais velocidade sem mais complexidade.
Posicionamento Econômico
Estratégia de propriedade. Estrutura internacional. Eficiência operacional.
| Modelo | Perfil | Indicado para |
|---|---|---|
| Proprietário-piloto direto | Controle total, custo operacional mínimo | Piloto com 200+ horas/ano |
| Propriedade via LLC (EUA) | Proteção patrimonial, matrícula N | Operação binacional Brasil-EUA |
| Estrutura via SPE | Eficiência fiscal, separação patrimonial | Famílias empresárias |
| Aquisição mediante estrutura personalizada | Otimização jurisdicional completa | Operações com base no Paraguai |
O Vision Jet tem uma vantagem econômica que nenhum outro jato oferece: custo operacional direto de aproximadamente US$ 700 por hora de voo. Compare com US$ 1.900 do Hawker 400XP ou US$ 2.200 do Phenom 300E. A diferença não é marginal — é estrutural. Para quem voa 250 horas por ano, são US$ 300.000 a menos em custo operacional anual comparado a um light jet bimotor.
| Aeronave | Alcance (nm) | Custo/hora | Posicionamento |
|---|---|---|---|
| Cirrus Vision SF50 | 1.275 | ~US$ 700 | Jato pessoal — autonomia total |
| TBM 960 (turboprop) | 1.730 | ~US$ 900 | Turboprop premium — maior alcance |
| Pilatus PC-12 (turboprop) | 1.803 | ~US$ 1.100 | Versatilidade — pistas curtas |
| Embraer Phenom 100EV | 1.178 | ~US$ 1.500 | VLJ bimotor — cabine maior |
| HondaJet Elite S | 1.437 | ~US$ 1.600 | VLJ bimotor — maior velocidade |
Perceba a posição do SF50 nessa tabela. Ele compete em alcance com jatos bimotores que custam o dobro para operar. E compete em custo com turboprops que voam 100 nós mais devagar. É um posicionamento único: velocidade de jato com economia de turboprop. Nenhuma outra aeronave ocupa esse espaço.
| Variante | Período | Destaque |
|---|---|---|
| G1 (original) | 2016–2019 | Williams FJ33-5A, CAPS, Garmin G3000, teto 28.000 ft |
| G2 | 2019–2023 | Safe Return (autoland), teto 31.000 ft, alcance 1.275 nm |
| G2+ | 2023+ | Autothrottle, Flight Stream 510, alcance 1.275 nm |
A evolução do G1 para o G2+ é significativa. O teto subiu de 28.000 para 31.000 pés — acima do mau tempo. O alcance aumentou 27%. E o Safe Return transformou a segurança passiva (paraquedas) em segurança ativa (pouso autônomo). Cada geração não é apenas um upgrade — é uma redefinição do que um jato pessoal pode fazer.
O Cirrus Vision SF50 não é um jato pequeno. É uma categoria nova. A categoria do empresário que quer velocidade de jato, segurança redundante e autonomia operacional — sem a complexidade, o custo e a dependência de uma operação bimotor com tripulação.
721 unidades entregues não mentem. O mercado validou a tese. E para quem opera no raio doméstico brasileiro — São Paulo para qualquer capital do Sudeste e Sul em menos de 2 horas — é difícil encontrar uma equação mais inteligente de custo, velocidade e liberdade.
O futuro da aviação pessoal já está voando. A pergunta é: você vai esperar ou vai embarcar?
A pista está livre.
O destino é seu.

Rodrigo Nogueira
COO & Editor-Chefe
Estratégia editorial e curadoria de inteligência aplicada ao setor aeronáutico.

Júlio N. Nogueira
CEO & Estrategista
Arquitetura internacional e posicionamento estratégico em aviação executiva.
Fontes
Wikipedia (Cirrus Vision SF50) · Cirrus Aircraft · GlobalAir.com · AOPA · Simple Flying · Aircraft Cost Calculator · AvBuyer · Corporate Jet Investor · Plane & Pilot Magazine · Performance Flight
