Vou contar uma história que pouca gente conhece.
Em 1996, a Gulfstream — uma das fabricantes de jatos executivos mais respeitadas do planeta — abriu uma planta em Mexicali, no deserto da Baja California. Longe de tudo. Calor de 45 graus. Nenhuma tradição aeroespacial local.
Trinta anos depois, essa planta emprega mais de 5.000 pessoas. Produz chicotes elétricos, componentes de chapa metálica e subconjuntos para os G280 e G550 — incluindo peças para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Em 2024, a Gulfstream anunciou mais US$ 370 milhões em investimentos. Uma segunda planta. Mais 1.500 empregos.
Sabe por quê?
Porque os americanos entenderam uma coisa que nós, brasileiros, ainda não entendemos: a fronteira não é um limite. É uma alavanca.
US$ 10,7 bilhões. Esse é o número.
É o que o México exporta por ano em produtos aeroespaciais. Dez bilhões e setecentos milhões de dólares. Crescimento médio de 14% ao ano desde 2004. Mais de 368 empresas. Sessenta mil empregos diretos. O 12º maior produtor aeroespacial do mundo.
E tudo começou com uma palavra: Maquila.
O programa IMMEX — a versão mexicana do regime de maquila — permite que empresas estrangeiras importem insumos sem impostos, processem no México e exportem o produto final. Sem IVA. Sem imposto de importação. Sem direitos compensatórios.
Os americanos olharam para o México e viram o que ninguém via: mão de obra qualificada a custo competitivo, proximidade logística absurda e um regime fiscal que eliminava a fricção.
| Empresa | Localização | Operação | Escala |
|---|
| Gulfstream | Mexicali, BC | Componentes para G280/G550, contratos militares | 5.000+ funcionários |
| Honeywell | Tijuana, Mexicali, Chihuahua | Motores, turbinas, sistemas de controle | 1.200 CNCs |
| Safran | Sonora, Querétaro | Motores, trem de pouso, interiores | 13.000+ funcionários |
| Collins/RTX | Sonora, BC | Aviônicos, motores, trem de pouso | Fornece Boeing e Airbus |
| Bombardier | Querétaro | Estruturas, interiores, MRO | Hub de engenharia |
| GE Aviation | Chihuahua, Querétaro | Turbinas, peças de motores | Cluster avançado |
Confesso que quando li esses números pela primeira vez, senti uma mistura de admiração e incômodo. Admiração pela visão estratégica. Incômodo porque a resposta brasileira a esse modelo está a menos de duas horas de voo de São Paulo.
E ninguém está olhando.
Agora troca "México" por "Paraguai" e "EUA" por "Brasil".
Vou ser direto. O paralelo é quase obsceno de tão óbvio.
Os Estados Unidos têm uma fronteira com o México. O Brasil tem uma fronteira com o Paraguai. Os americanos criaram o IMMEX. Os paraguaios têm a Lei 1.064/97 — o regime de Maquila. Os americanos usaram a proximidade para construir um ecossistema aeroespacial de US$ 10 bilhões. O Brasil... ainda não começou.
| Dimensão | EUA → México (IMMEX) | Brasil → Paraguai (Maquila) |
|---|
| Regime fiscal | Isenção de IGI, IVA e compensatórios | Tributo único de 1% sobre valor agregado |
| Importação de insumos | Temporária, sem impostos | Temporária, sem impostos |
| Acordo comercial | USMCA (antigo NAFTA) | Mercosul |
| Proximidade logística | Fronteira terrestre direta | Fronteira terrestre direta |
| Custo de mão de obra | Competitivo vs. EUA | Competitivo vs. Brasil |
| Setor aeroespacial ativo | 368 empresas, US$ 10,7 bi/ano | Zero empresas dedicadas |
| Maturidade do regime | 30 anos (desde 1996) | 28 anos (desde 1997), sem aviação |
A Lei 1.064/97 do Paraguai é, em muitos aspectos, mais generosa que o IMMEX mexicano. O tributo único de 1% sobre o valor agregado é uma das cargas fiscais mais baixas do planeta para operações industriais de exportação. E em 2026, o regime foi ampliado para incluir serviços de valor agregado — tecnologia, engenharia, consultoria especializada.
Sabe quantas maquilas ativas existem hoje no Paraguai? Cerca de 300. Exportando US$ 1,3 bilhão por ano. Gerando 26.500 empregos diretos. Focadas em autopartes, têxteis e plásticos.
Nenhuma — nenhuma — dedicada à aviação.
O ponto cego de US$ 31,6 bilhões.
A Embraer encerrou 2025 com uma carteira de pedidos recorde: US$ 31,6 bilhões. Crescimento de 20% em relação ao ano anterior. A empresa trabalha com mais de 5.300 fornecedores espalhados pelo mundo.
Pelo mundo. Não pelo vizinho.
Enquanto a Gulfstream monta componentes a 30 minutos de carro da fronteira americana, a cadeia de suprimentos da aviação brasileira continua fragmentada entre Europa, Ásia e América do Norte. Componentes que poderiam ser fabricados a 1h40 de voo de São Paulo são importados de fornecedores a 12 horas de distância.
Percebi algo nos últimos anos acompanhando esse setor: o Brasil tem a segunda maior frota de jatos executivos do mundo — 1.140 aeronaves de negócios registradas, mais de 11.239 aeronaves no total. Tem a Embraer, uma das quatro maiores fabricantes de aeronaves comerciais do planeta. Tem engenheiros de classe mundial. Tem demanda.
O que não tem é visão de fronteira.
Os americanos olharam para Mexicali — um deserto sem tradição aeroespacial — e construíram um hub de US$ 10 bilhões. Nós olhamos para o Paraguai — um país com 50 aeroportos certificados pela ICAO, 432 pistas de pouso homologadas e um regime fiscal que cobra 1% — e não vemos nada.
Três camadas de oportunidade.
Vou desenhar o que vejo. Não como especulação. Como arquitetura.
Camada 1 — MRO (Manutenção, Reparo e Overhaul)
O México começou por aqui. Antes de fabricar turbinas, começou consertando aviões. O Paraguai tem a infraestrutura básica: hangares, pistas, mão de obra técnica formável. E tem algo que o México não tinha nos anos 90: proximidade com a segunda maior frota de jatos executivos do mundo. Cada Phenom, cada Citation, cada Legacy que opera no Brasil precisa de manutenção periódica. Fazer isso no Paraguai, com custo operacional 40-60% menor, não é utopia. É matemática.
Camada 2 — Componentes e Subconjuntos
A Gulfstream não fabrica aviões inteiros em Mexicali. Fabrica peças. Chicotes elétricos. Chapas metálicas. Subconjuntos. Esse é o modelo. Uma maquila paraguaia poderia produzir componentes para a cadeia de suprimentos da Embraer, da Helibras, das empresas de MRO brasileiras — com importação de insumos sem impostos, tributação de 1% e exportação facilitada pelo Mercosul.
Camada 3 — Hub de Serviços Aeroespaciais
Com a ampliação do regime de Maquila em 2026 para serviços de valor agregado, o Paraguai pode ir além da manufatura. Engenharia de projeto. Certificação de componentes. Treinamento técnico. Consultoria de aeronavegabilidade. Serviços que hoje são contratados na Europa ou nos EUA a custos proibitivos.
O México levou 30 anos para construir o que tem. Investiu em formação técnica, infraestrutura aeroportuária e marcos regulatórios específicos. O Paraguai está no ponto zero da aviação industrial.
Mas sabe o que o Paraguai tem que o México de 1996 não tinha?
Um modelo comprovado para copiar. O IMMEX já mostrou que funciona. A Lei 1.064/97 já existe e é, em muitos aspectos, mais favorável. O Mercosul, apesar de todas as suas limitações, oferece um framework de integração comercial. E a demanda brasileira — a segunda maior frota do mundo, uma Embraer com US$ 31 bilhões em carteira — está ali, do outro lado da ponte.
Confesso que o que me incomoda não é a dificuldade. É a obviedade. É olhar para o que os americanos fizeram com o México e não conseguir ver que a mesma lógica se aplica — talvez com mais força — ao corredor Brasil-Paraguai.
Quem vai ser a Gulfstream do Paraguai?
Em 1996, alguém na Gulfstream olhou para Mexicali e viu o que ninguém via. Tomou uma decisão que parecia arriscada. Trinta anos e US$ 370 milhões em novos investimentos depois, essa decisão parece genial.
O Paraguai está esperando a mesma decisão.
Não precisa ser uma multinacional. Pode ser um empresário brasileiro com visão de fronteira. Pode ser uma empresa de MRO que entende que custo operacional é vantagem competitiva. Pode ser um fundo de investimento que percebeu que o setor aeroespacial paraguaio vale zero hoje — e que tudo que vale zero tem potencial infinito de valorização.
A pergunta não é se o Paraguai vai se tornar um hub aeroespacial. A pergunta é quando. E, mais importante: quem vai chegar primeiro.
Sabe o que aprendi observando o modelo americano-mexicano?
Que os primeiros a chegar não são os mais ricos. São os que enxergam antes. Os que entendem que a fábrica do vizinho não é concorrência — é oportunidade.
A fábrica do vizinho está esperando.
A pista está livre.
A decisão é sua.

Rodrigo Nogueira
COO & Editor-Chefe
Estratégia sob pressão. Visão que conecta pessoas, mercados e oportunidades em um único movimento.

Júlio N. Nogueira
CEO & Estrategista
Arquitetura jurídica e internacional. Estruturação de jurisdições e planejamento estratégico com precisão.
Fontes
WingX Global Flight Data 2025 · Prodensa/Mexico Aerospace Industry 2025 · Decreto IMMEX (Secretaría de Economía, México) · Lei nº 1.064/97 (Regime de Maquila, Paraguai) · CNIME/MIC Paraguay · Embraer Annual Report 2025 · ABAG/ANAC · American Industries Group · US State Department Paraguay Investment Climate 2025 · DINAC Paraguay
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