Piper PA-42 Cheyenne III em voo ao entardecer
Hangar EstratégicoTwin Turboprop

Piper PA-42 Cheyenne: O Turboélice que Desafiou os Jatos

A maior aeronave já construída pela Piper. A versão 400LS voava a 351 nós — mais rápido que muitos jatos leves da época. Chuck Yeager, o primeiro homem a quebrar a barreira do som, era seu embaixador. Uma análise estratégica da família que ousou competir com o King Air — e deixou uma marca indelével na aviação executiva.

Douglas Nogueira

Douglas Nogueira

Ciências Aeronáuticas & Continuidade

12 min de leitura
23 Fev 2026

Em setembro de 1977, a Piper Aircraft anunciou o que seria seu projeto mais ambicioso: o PA-42 Cheyenne III. Não era apenas mais um turboélice bimotor. Era uma declaração de guerra ao reinado absoluto do Beechcraft King Air 200 — e uma aposta de que a Piper poderia competir no segmento mais exigente da aviação executiva.

O primeiro voo aconteceu em 18 de maio de 1979. A certificação FAA veio no início de 1980, e as entregas começaram em 30 de junho daquele ano. A família Cheyenne evoluiu do PA-31T (Cheyenne I e II), que por sua vez derivava do lendário PA-31 Navajo. Mas o PA-42 era uma aeronave fundamentalmente diferente: fuselagem mais longa, envergadura maior, cauda em T e motores Pratt & Whitney PT6A-41 de 720 shp — quase o dobro de potência do Cheyenne II.

A cauda em T é a assinatura visual mais marcante do PA-42. Inspirada no design de aeronaves de transporte regional, ela oferece melhor estabilidade direcional em velocidades altas e reduz a interferência aerodinâmica entre a asa e o estabilizador horizontal. É o detalhe que separa o Cheyenne III de seus antecessores à primeira vista.

Fato Histórico

Chuck Yeager e o Cheyenne 400LS

O Brigadeiro-General Chuck Yeager — o primeiro piloto a quebrar a barreira do som em 14 de outubro de 1947, a bordo do Bell X-1 — foi escolhido como piloto-embaixador e porta-voz do Piper Cheyenne 400LS. Yeager não apenas promovia a aeronave: ele a pilotava pessoalmente em demonstrações e voos de longa distância.

A escolha não era casual. O Cheyenne 400LS, com seus motores Garrett TPE331-14 de 1.000 shp e velocidade máxima de 351 nós (650 km/h), era o turboélice mais rápido do mundo na sua época — e Yeager era o piloto mais associado à velocidade na história da aviação. A combinação era irresistível do ponto de vista de marketing e de credibilidade técnica.

Yeager chegou a voar o Cheyenne 400LS de costa a costa nos Estados Unidos — de Miami a San Francisco, de Boston a Los Angeles, de Charleston a Cincinnati — demonstrando o alcance e a versatilidade da aeronave. Ele também cruzou o Atlântico via Gander (Canadá) até Paris e Washington, provando que um turboélice bimotor podia fazer rotas intercontinentais com conforto e segurança.

A versão CHET (Customs High Endurance Tracker) merece menção especial. Nove unidades do Cheyenne III foram modificadas para o U.S. Customs Service com radar AN/APG-66 e FLIR ventral, transformando um turboélice executivo em plataforma de vigilância aérea. É um testemunho da robustez e versatilidade do projeto original.

Camada 01

Engenharia

Ficha técnica real. Variantes. Motorização. Alcance. Capacidade.

Identificação
ItemDetalhe
DesignaçãoPiper PA-42 Cheyenne (família)
FabricantePiper Aircraft
País de origemEstados Unidos
Primeiro voo18 de maio de 1979 (Cheyenne III)
Produção1979–1993
Unidades construídas~393 (192 III + 149 IIIA + 43 400 + 9 CHET)
ClasseTwin Turboprop (Executivo / Vigilância)
CertificaçãoFAA Part 23
Origem do projetoEvolução do PA-31T Cheyenne I/II (derivado do PA-31 Navajo)
Variantes da Família
VarianteMotoresPotênciaUnidadesObservação
Cheyenne III (PA-42)2× P&WC PT6A-41720 shp cada192Modelo original, cauda em T
Cheyenne IIIA (PA-42-720)2× P&WC PT6A-61720 shp cada149Motor atualizado, maior alcance
Cheyenne 400LS (PA-42-1000)2× Garrett TPE331-141.000 shp cada43Maior aeronave Piper, 351 kn
CHET2× P&WC PT6A-41720 shp cada9Vigilância para US Customs
Comparativo Técnico
EspecificaçãoCheyenne IIICheyenne IIIACheyenne 400
Comprimento43 ft 5 in (13,2 m)43 ft 5 in (13,2 m)43 ft 5 in (13,2 m)
Envergadura47 ft 8 in (14,5 m)47 ft 8 in (14,5 m)47 ft 8 in (14,5 m)
Altura14 ft 9 in (4,5 m)14 ft 9 in (4,5 m)17 ft 0 in (5,18 m)
MTOW11.080 lb (5.026 kg)11.200 lb (5.080 kg)12.050 lb (5.466 kg)
Peso vazio6.389 lb (2.898 kg)6.837 lb (3.101 kg)7.565 lb (3.431 kg)
Combustível562 US gal (2.130 L)582 US gal (2.200 L)582 US gal (2.200 L)
Cruzeiro290 kn (537 km/h)282–305 kn298–351 kn (650 km/h)
Alcance1.330 nm (2.463 km)2.270 nm (4.204 km)2.240 nm (4.148 km)
Teto de serviço33.000 ft (10.100 m)35.000 ft (10.700 m)41.470 ft (12.600 m)
Razão de subida2.380 ft/min2.235 ft/min3.242 ft/min
Pista (BFL)3.920 ft (1.195 m)3.363 ft (1.025 m)3.180 ft (969 m)
Passageiros6–96–96–9
Cabine (L × A)4 ft 3 in × 4 ft 8 in4 ft 3 in × 4 ft 8 in4 ft 3 in × 4 ft 8 in

Os números do Cheyenne 400 são impressionantes para um turboélice: 351 nós de velocidade máxima de cruzeiro, teto de 41.470 pés e razão de subida de 3.242 ft/min. Para contextualizar, o Cessna Citation I — um jato leve — tinha velocidade máxima de 350 nós. O Cheyenne 400LS era literalmente mais rápido que um jato, com custo operacional de turboélice.

Camada 02

Operação

Custos reais. Manutenção. Perfil de missão. Quem opera e por quê.

O Cheyenne III queima aproximadamente 77–82 galões por hora em cruzeiro — significativamente menos que um jato leve equivalente, que consome entre 120 e 180 gal/h. Para um operador que faz 400 horas anuais, a diferença no custo de combustível pode ultrapassar US$ 200.000 por ano. Esse é o argumento econômico central do turboélice de alta performance.

A manutenção dos motores PT6A é outro ponto forte. A família PT6 é o motor turboélice mais produzido do mundo, com mais de 60.000 unidades entregues. Isso significa uma rede global de centros de manutenção, peças abundantes e técnicos experientes. O TBO (Time Between Overhaul) do PT6A-41 é de 3.600 horas, e o custo de overhaul gira em torno de US$ 280.000–350.000 por motor.

Custos Operacionais Estimados
ItemCheyenne III / IIIACheyenne 400LS
Combustível (por hora)~US$ 550–620~US$ 700–800
Manutenção (por hora)~US$ 350–450~US$ 450–550
Seguro anual~US$ 25.000–40.000~US$ 30.000–50.000
Hangaragem (mensal)~US$ 1.500–3.000~US$ 1.500–3.000
Custo total/hora (estimado)~US$ 1.200–1.500~US$ 1.500–1.900
Tripulação1–2 pilotos1–2 pilotos

O perfil de missão ideal do Cheyenne é o voo regional de 500 a 1.500 milhas náuticas com 4 a 6 passageiros. Nessa faixa, ele oferece velocidade comparável a jatos leves com custo operacional 30–40% menor. A capacidade de operar em pistas curtas (BFL de 3.180 ft no 400LS) amplia o acesso a aeroportos menores que jatos não alcançam.

Na América do Sul, o Cheyenne encontra um nicho natural: pistas curtas em regiões remotas, custos de combustível elevados (onde a eficiência do turboélice brilha) e distâncias regionais que não justificam um jato. Operadores no Brasil, Paraguai e Argentina utilizam o Cheyenne para conectar cidades secundárias, fazendas e operações de agronegócio.

Camada 03

Mercado

Valores atuais. Concorrência. Liquidez. Oportunidades de aquisição.

O mercado de Cheyennes usados é um dos segredos mais bem guardados da aviação executiva. Com a produção encerrada em 1993 e apenas ~393 unidades construídas, a frota é limitada — mas os preços são surpreendentemente acessíveis. Um Cheyenne III em bom estado pode ser encontrado entre US$ 500.000 e US$ 750.000. O IIIA, com motor atualizado e maior alcance, fica na faixa de US$ 500.000 a US$ 900.000. O 400LS, o modelo mais cobiçado, varia de US$ 800.000 a US$ 1.550.000.

Valores de Mercado (2025–2026)
ModeloFaixa de PreçoAno TípicoObservação
Cheyenne IIIUS$ 500K–750K1980–1985Melhor relação custo-benefício
Cheyenne IIIAUS$ 500K–900K1984–1992Motor PT6A-61 mais eficiente
Cheyenne 400LSUS$ 800K–1.55M1984–1991Mais rápido, mais raro (43 unid.)
King Air 200 (comparativo)US$ 800K–2.5M1980–2000Referência de mercado
King Air 350 (comparativo)US$ 2.5M–5.5M1990–2010Segmento superior

A comparação com o King Air é inevitável — e reveladora. Um King Air 200 de ano equivalente custa 30–50% mais que um Cheyenne IIIA, com performance similar. O Cheyenne oferece velocidade de cruzeiro comparável, alcance competitivo e custos operacionais ligeiramente menores. A desvantagem é a rede de suporte: a Textron (fabricante do King Air) mantém uma infraestrutura global ativa, enquanto a Piper não fabrica mais o PA-42.

Para o comprador estratégico, o Cheyenne representa uma oportunidade: performance de primeiro escalão a preço de segundo. A chave é encontrar exemplares bem mantidos, com histórico de manutenção completo e motores com horas remanescentes significativas antes do próximo overhaul.

Camada 04

Jurisdição

Registro. Tributação. Estruturação. Impacto da LC 214/2025.

O Cheyenne, com valor de aquisição entre US$ 500K e US$ 1.5M, posiciona-se em uma faixa tributária onde a estruturação internacional faz diferença significativa. A importação direta para o Brasil pode gerar carga tributária de 25–35% sobre o valor da aeronave (II + IPI + ICMS/IBS+CBS na transição), dependendo do estado e do regime aplicável.

Com a LC 214/2025 e a transição tributária 2026–2033, o cenário está em transformação. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) substituirão gradualmente o ICMS, PIS e COFINS. Para aeronaves, a alíquota combinada IBS+CBS tende a ficar entre 10,6% e 12,5% sobre serviços financeiros (leasing), com possibilidade de redução de 60% para determinadas operações de transporte aéreo.

O IPVA sobre aeronaves, autorizado pela EC 132/2023, já é cobrado em 5 estados (Alagoas 1%, Amapá 0,5–3%, Pará 0,5%, Roraima 3%, Espírito Santo 2%), mas a maioria dos estados ainda não aprovou legislação. Para um Cheyenne de US$ 700K, o IPVA anual pode variar de US$ 3.500 (0,5%) a US$ 21.000 (3%), dependendo do estado de registro.

Cenários de Estruturação
CenárioCarga EstimadaEconomia vs. Importação Direta
Importação direta BR25–35% do valorReferência (base)
Maquila Paraguaia (Ley 1064)1% s/ faturamento + IVA 10%Economia de 40–55%
Leasing via Holding PY (Art. 89 §4°)IOF 0,38% + IRRF 0–15%Economia de 50–65%
SPV no Uruguai (Zona Franca)IRAE 0% + Patrimonio 0%Economia de 45–60%
Holding Holanda (Participation Exemption)IRRF 0% (business profits)Economia de 55–70%

Para um Cheyenne IIIA de US$ 700.000, a diferença entre importação direta e estruturação via leasing com holding no Paraguai pode representar uma economia de US$ 100.000 a US$ 175.000 no custo total de aquisição em 5 anos. Em uma aeronave cujo valor de mercado já é competitivo, essa otimização transforma o Cheyenne em uma das propostas de valor mais agressivas da aviação executiva.

Veredito Altitude Prime

O Outsider que Merece Atenção

O Piper PA-42 Cheyenne não é o turboélice mais famoso. Não tem a onipresença do King Air nem a rede de suporte da Textron. Mas oferece algo que poucos concorrentes entregam: performance de primeiro escalão a preço de segundo, com a credibilidade de ter sido pilotado por Chuck Yeager e operado pelo U.S. Customs Service em missões de vigilância.

Para o operador que busca velocidade, alcance e economia — e que tem acesso a uma boa oficina de PT6A — o Cheyenne é uma escolha estratégica. O 400LS, em particular, é uma raridade: apenas 43 unidades construídas, velocidade superior a jatos leves, e preços que começam abaixo de US$ 1 milhão.

A maior aeronave já construída pela Piper merece mais do que uma nota de rodapé na história da aviação. Merece uma reavaliação estratégica.

Fontes & Referências

  • ·Wikipedia — Piper PA-42 Cheyenne
  • ·GlobalAir — Cheyenne III PA-42-720 Specifications
  • ·AOPA — Quick Look: Cheyenne III/IIIA (2014)
  • ·PlanePHD — Piper PA-42-720 Cheyenne III Performance Data
  • ·BJT Online — Piper Cheyenne III & IIIA
  • ·Twin & Turbine — Piper Cheyenne 400LS: Outpacing the Test of Time
  • ·Controller.com — Piper Cheyenne Listings (2025–2026)
  • ·Friend Air Care — Cheyenne III & 400LS Specifications & Performance
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